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Revista 12 - 2003 - ABD 30 anos

Corpo e Tempo (José Carlos Michelazzo)

Resumo: O presente texto, dividido em duas partes, se propõe a fazer algumas conexões entre “corpo e tempo”, a partir da fenomenologia hermenêutica de Heidegger. A primeira parte procura nos apresentar o baixo estatuto ontológico ocupado pelo corpo ao longo das variações epocais da tradição do pensamento metafísico, no interior das quais segue uma trajetória de um contínuo declínio de seu sentido: como simples cópia (na antiguidade), como criatura (na medievalidade); como objeto (na modernidade) e como mercadoria (na contemporaneidade). A segunda parte mostra-nos que um possível resgate do corpo, num entendimento mais originário de seu sentido, só acontecerá se o pensamento desligá-lo desta secular perspectiva que o apreende em sua mera entificação para ser interpretado como fenômeno. Tal transformação – que dar-se-á pelo viés de uma compreensão mais originária do tempo –, dará ao corpo um novo estatuto, mais simples, mais próximo de nossa experiência, qual seja, o de ser uma companhia exigente de nosso poder-ser (Seinkönnen), uma porta de acesso ao Aberto de nossa existência.

Abstract: The present text, divided in two parts, intends to do some connections between “Body and Time”, from Heidegger’s hermeneutics phenomenology. The first part presents us the low ontologic statute occupied by body along epochal variations in tradition of metaphysical thought, which follows a way of continued declination of its meaning: as mere copy (in Ancient Age), as creature (in Midle Age), as object (in Modern Age) and as mershandise (in Contemporary Age). The second part shows us that a possible rescue of the body, in a more originary understanding of its meaning, only will happen if the thought unlink it from this secular perspective which catchs the body in its mere entity, and so interpret it as a phenomenon. This transformation - which will occur through a more originary understanding about Time -, will give body a new statute, simplest and closer of our experience, an exigent fellow of our potentiality-for-being (Seinkönnen), a door of access to the Opening of our existence.


Corporeidade (João Augusto Pompéia)

Resumo: Neste artigo a existência é considerada em sua indigência e em sua potência de ser. Ambas caracterizam o humano e se apóiam na corporeidade, um caráter fundamental da existência — um existencial — na perspectiva heideggeriana.
Integram a indigência: o sentimento da pequenez; a imposição das necessidades; a limitação; o suportar o peso da existência; a dor; o ser exposto; a decadência; a morte. E a potência de ser diz respeito a todo realizar humano, ao poder transcender, ao poder ter prazer, à experiência do belo.
Considera-se, por fim, que a corporeidade diz respeito não só ao homem, mas também ao mundo, pois é ela que possibilita que os entes se manifestem como se manifestam.

Palavras-chave: existencial, indigência, potência de ser, transcendência, manifestação dos entes.

Abstract: In this article existence is considered in its indigence and potentiality-to-be. Both characterize human being and are based on bodiness, a fundamental character of existence – an existential – in Heidegger´s perspective.
Indigence comprises: the feeling of smallness; the request of needs; limitation; bearing the weight of existence; pain; the exposed being; decadence; death. And potentiality-to-be regards all human achievements, the potentiality of transcending, the power of pleasure, the experience of beauty.
Bodiliness is seen not only as referred to man but also to the world, once it is through bodiliness that entities manifest themselves the way they do.

Key-words: existential, indigence, potentiality-to-be, transcendence, manifestation of entities.


Daseinsanalyse: Corpo e Corporeidade (Ida Elizabeth Cardinalli)

Resumo: O artigo recorre duplamente ao pensamento de Martin Heidegger tanto para refletir sobre a presença dos fundamentos da Ciência Natural na noção contemporânea do corpo, quanto para apresentar sua compreensão do corpo e da corporeidade. O filósofo contribui para um novo entendimento do existir humano e do corpo, quando mostra que estes são indissociáveis, oferecendo assim elementos para a elaboração de uma outra visão da psicossomática, que foi desenvolvida por Medard Boss como Psicossomática Daseinsanalítica.

Palavras-chave: Heidegger, Boss, corpo, corporeidade, psicossomática.

Abstract: This paper refers to Martin Heidegger’s thoughts not only to reflect upon the principles of natural science in the contemporary notion of the body but also his understanding of the body and corporeity. The philosopher contributes to a new understanding of the human existence and the body, when he states that these are inseparable, thus giving elements to a new elaboration of another view of psychosomatics that was developed by Medard Boss as Daseinanalysis Psychomatics.

Key words: Heidegger, Boss, body, corporeity, psychosomatic


Teoria Existencial, Daseinsanalyse e a Psicossomática (Maria Beatriz Cytrynowicz)

Resumo: Encontramos nesta apresentação considerações sobre a influência decisiva do chamado “espírito” técnico e dos princípios de causalidade e objetivação nas proposições do pensamento médico da psicossomática, soma e psique. Em seguida, a partir das reflexões do filósofo Martin Heidegger e do médico Medard Boss, encontramos a referência fenomenológico-existencial para novas colocações a respeito da corporeidade e do adoecimento do homem.

Palavras-chave: Fenomenologia-existencial, Daseinsanalyse, psicossomática, doença, adoecimento, modo de ser doente, corpo, corporeidade.

Abstract: Some considerations are presented in this paper about the decisive influence from the so called technical “spirit” and principles of causality and objectivation in the propositions of the psychosomatic medical thinking, soma and psyche. Based on the philosopher Martin Heidegger and on the physician Medard Boss ideas, the phenomenological-existential reference for new statements about bodiliness and about human sickening were found.

Key-words: Phenomenology-existential, Daseinsanalyse, psychosomatics, illness, sickening, way of being ill, body, bodiliness.


Estresse do ponto de vista da Daseinsanalyse (Maria de Fátima de Almeida Prado)

Resumo: Este texto investiga o fenômeno do estresse. Heidegger em seu livro Seminários de Zollikon examina o fenômeno do estresse e o nomeia como um existencial. É nosso interesse desenvolver um estudo para aprofundar a compreensão deste fenômeno, que é tão freqüente e comum hoje em dia que se pode até imaginar que já tenha sido totalmente discutido e aparentemente conhecido, inclusive no campo da medicina. Uma vez que Heidegger o definiu como um existencial parece-nos necessária uma nova reflexão fundamentada na compreensão heideggeriana do ser humano.
Heidegger assinala que estresse significa: solicitação excessiva endereçada a alguém; ser e/ou estar oprimido; des-opressão também pode ser uma forma de estresse. Por outro lado, estresse é algo que preserva a vida. O estresse pertence à constituição do ser humano existente e está em relação com o fenômeno da queda descrito no livro Ser e tempo.
Este estudo aproxima o fenômeno, especialmente através do exame de casos clínicos, baseado na descrição feita por Heidegger do ser humano existente, focando o estresse como um existencial, que também é determinado pelo ser lançado, pela compreensão e pela linguagem.

Palavras-chave: Daseinsanalyse, existencial, estresse, queda, angústia, época da técnica.

Abstract: This essay investigates the phenomenon of stress. Heidegger in his book Zollikon Seminars, examined the phenomenon of stress and named it an existenciale [Existenzial]. It is in our interest to develop studies in order to deepen the understanding about this phenomenon, which is so frequent and common nowadays that one can feel that it is totally discussed and apparently known, including in the medical field. Since Heidegger named it an existentiale [Existenzial], it seems to us that it deserves a new reflexion based upon Heidegger’s insights on the understanding of the human being.
Heidegger points out that stress signifies to have a claim made on oneself and to be burdened as well as unburdening can also be a form of stress. On the other hand stress is something that preserves life. The estresse belongs to the constitution of the existing human being and is related to the phenomenon of “falling”, described in the book “Being and Time”.
This essay approaches this phenomenon particularly through the examination of some clinical cases based on the constitution of human existence described by Heidegger focusing on the existentiale of the stress, which is also determined by thrownness, by understanding, and language.

Key-words: Daseinsanalyse, existentiale, stress, anguish, falling, technological epoch.