A caminho da linguagem na experiência da Daseinsanalyse Clínica - Danielle Pisani de Freitas
A caminho da linguagem na experiência da Daseinsanalyse Clínica
Danielle Pisani de Freitas
 
   Pretendo hoje compartilhar um dos caminhos que percorri na procura pelo modo peculiar em que a linguagem se imbrica na experiência da Daseinsanalyse clínica.1 A linguagem se mostra, ao mesmo tempo, como condição e como o modo próprio de realização desta experiência. Uma experiência onde, como Daseinsanalista, procuro constantemente, e a cada vez, a liberdade da abertura, de uma disponibilidade silenciosa e ignorante, mas interessada na escuta do dizer de cada um de meus pacientes, atenta para a possível aparição compartilhada do mistério e da verdade que liberta o sentido das histórias que eles me contam. Manter o vazio disponível para o acolhimento da fala e da escuta de tantas histórias é tarefa difícil e indigente que só faz sentido quando é realizada junto: paciente e terapeuta a caminho da linguagem capaz de revelar o sentido que orienta a história que o paciente está agora compondo e sendo.
   
   Segundo Heidegger na conferencia A essência da linguagem2 , fazer experiência de alguma coisa significa se colocar a caminho, num caminho onde a coisa pode aparecer, nos encontrar, nos comover e nos transformar enquanto nos revela seu sentido. A experiência da Daseinsanalyse clinica só pode ser alcançada se estivermos no próprio caminho de seu acontecer, onde ela pode ser encontrada e nos comover a ponto de nos transformar. Participam e se transformam neste caminho necessariamente paciente, terapeuta e o próprio dar-se da linguagem, cada qual no seu lugar e de acordo com seu modo peculiar de movimento. Proponho agora dividir a minha fala em 3 partes. Na 1ª trago uma reflexão sobre a peculiaridade do lugar de paciente a caminho da linguagem na experiência da Daseinsanalyse clínica. Na 2ª o foco será o estar a caminho da linguagem a partir do lugar de terapeuta Daseinsanalista. Por último, aproximo o lugar e o movimento mesmo do próprio dar-se da linguagem no caminho da experiência clínica.
 
1 Quem se interessar pode ler um texto mais extenso que já está no prelo da próxima revista da ABD, onde me detenho mais sobre os fundamentos ontológicos da linguagem em Heidegger.
2 Heidegger, A essência da linguagem, em A caminho da linguagem, p.137
 
Lugar de paciente
 
   A condição para ser paciente em Daseinsanalyse é ser gente, ser humano, ser Dasein, ter a possibilidade de se perguntar a respeito de si mesmo e sentir vontade ou necessidade de participar do enredo da própria história de modo mais livre e lúcido. Segundo Heidegger, “a essência do homem repousa na linguagem”3 Existimos como linguagem, na linguagem. “O homem é aquele que fala. Falamos em sonho, acordados, quando ouvimos, lemos, contemplamos ao nosso redor, fazemos algo ou não fazemos nada”4 . Mesmo sendo a linguagem intrínseca ao nosso existir, nem sempre é fácil para o paciente a tarefa de falar de si na presença do terapeuta. “Contar pode ser dificultoso”, já dizia Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa. No entanto, a oportunidade vazia de cada sessão disponibilizada a cada vez, a cada paciente, só ganha sentido enquanto do silêncio vão brotando suas histórias, seus gestos, sua voz, suas falas, os acontecimentos, as dores sentidas, os sonhos, os projetos e as memórias que livremente se articulam e se organizam em linguagem. Na linguagem podem aparecer no mundo compartilhado tanto os fatos vividos e seus atuais significados quanto as possibilidades que não chegaram a se realizar. Podem aparecer compartilhadas tanto as experiências dos sonhos oníricos quanto as dos sonhos despertos sobre o futuro desejado ou temido, provável ou improvável. Via linguagem podem aparecer compartilhados aqueles fenômenos que na concretude do mundo material seriam intangíveis e invisíveis. Via linguagem as imagens vislumbradas podem aparecer na terapia descritas, desenhadas ou esculpidas. Via linguagem as emoções podem aparecer em gestos, em choro, em riso, em brincadeiras, em música, em palavras ou em silêncio. Via linguagem as histórias do paciente podem ser na sessão contadas da maneira que lhe parecer mais com-dizente com o modo como elas estão sendo naquele momento compreendidas e sentidas.
   
   É no compartilhar que se dá a possibilidade de o paciente ampliar a liberdade com que se envolve, se apropria e participa da história que está incessantemente compondo enquanto existe. A tarefa do paciente na experiência da Daseinsanalyse é a de procurar escutar o dizer que está pedindo voz, e ao escutar, se comprometer com ele, procurando um modo próprio de dize-lo ou de cala-lo que lhe seja condizente. É aquilo que está pedindo voz que configura a intensidade e a tonalidade da voz que melhor se harmoniza com o dito. Pode ser uma voz grave, uma voz mansa, uma voz raivosa, uma voz aflita, voz sofrida, voz firme, voz fraca, voz entediada, voz angustiada, voz sem voz, voz sem graça, voz engraçada, voz encantada, voz apaixonada, e assim por diante. Ao paciente, cabe, apenas e grandiosamente, silenciar para poder escutar, dar voz e se comprometer com o seu dito na medida que este faz sentido em sua história. 
 
3 Heidegger (1959) O caminho para a linguagem, em A caminho da linguagem. 
4 Heidegger, (1959) A linguagem, em A caminho da linguagem. P.7 
 
   Manoel de Barros descreve poeticamente em seu livro Retrato do artista quando coisa a possível radicalidade da procura de um dizer que lhe seja próprio e deste compromisso com a própria voz:
 
“ ...Preciso de atingir a escuridão com clareza.
Tenho de laspear verbo por verbo até alcançar o meu aspro.
Palavras tem que adoecer de mim para que se tornem mais saudáveis.
Vou sendo incorporado pelas formas pelos cheiros pelo som pelas cores.
Deambulo aos esgarços. Vou deixando pedaços de mim no cisco.
O cisco tem agora para mim uma importância de Catedral. ” 5
5 Manoel de Barros, Retrato do artista quando coisa, em Poesia Completa, p. 360 
 
   Neste compromisso com aquilo que pede voz, o paciente ganha a possibilidade, ainda que incerta, de descobrir que na apropriação do que lhe é singular, ordinário e simples como um “cisco” é que se encontra o vigor extraordinário da verdade ao mesmo tempo inaugural e familiar, que de súbito brota e abriga fazendo sentido. Quando isso acontece, é como se a história de vida do paciente aparecesse numa nitidez surpreendentemente familiar para ele, agora que aquela verdade antes envolta em escuridão pode aparecer. A surpresa de um possível encontro com este modo libertador de verdade não é de modo algum uma garantia, não é possível controlar nem prever aquilo cuja natureza é súbita e
surpreendente. De toda forma, é o movimento mesmo de procura do sentido da própria história e daquilo que há de ser dito que aproxima o paciente de seu existir mais próprio e singular e propicia que o cuidado consigo mesmo lhe ofereça um lugar propriamente humano para morar.
 
Lugar de terapeuta
 
   Se para os pacientes participarem da experiência da Daseinsanalyse clínica não são necessários pré-requisitos que não sejam sua humanidade e disponibilidade para contar de si, não podemos afirmar o mesmo a respeito dos Daseinsanalistas. Nos é exigida uma postura peculiar, muito diferente daquela da qual dispomos em encontros cotidianos, onde nos orientamos a partir dos nossos sonhos e das nossas histórias mais singulares, sabemos muitas coisas, valorizamos e acreditamos em tantas outras. Como terapeutas, no entanto, enquanto nos encontramos com nossos pacientes, tais nortes não tem o poder para nos orientar. Ao contrário, tais orientações nos desorientam na tarefa da clínica.
   
   Não vemos como possível nem desejável abdicar dos próprios sonhos, nem da própria história, nem do conhecimento ou das convicções. Entretanto, durante o trabalho clinico devemos procurar silenciá-los para melhor soar a voz do paciente dizendo do seu mundo. Não se trata de anular a voz do terapeuta para deixar a voz do paciente soar sozinha. Cabe ao terapeuta encontrar na própria voz tons e pausas que harmonizem e ressaltem o sentido do movimento da voz do paciente. Assim como num improviso musical onde, para que a voz do solista possa interpretar com liberdade e vigor a melodia de sua autoria, a outra voz tem que silenciar o protagonismo e soar os tons de fundo, que acolhem, harmonizam e favorecem a escuta do dizer que está solando. Na experiência da Daseinsanalyse clínica, o paciente seria o solista que improvisa a melodia que está naquele momento pedindo voz. O terapeuta ficaria com a tarefa de, partindo do silêncio aberto à escuta da voz do paciente, procurar nos tons próprios de sua voz a base harmônica complementar que colabora para que a voz do paciente apareça em seu mais singular sentido, vigor e beleza.
   
   Somente uma escuta silenciosa e indigente pode oferecer o terreno receptivo e fértil para que o sentido que atravessa as histórias que o paciente conta possa brotar e aparecer compartilhado. Entretanto, cultivar um terreno assim não é uma tarefa fácil, e de modo algum pode estar garantida através de recursos técnicos ou teóricos. Mesmo a ontologia fundamental de Martin Heidegger, que pode ser erroneamente interpretada como uma teoria que instrumentaria a pratica clínica, reitera a nossa condição de abertura livre como o fundamento silencioso que possibilita a escuta e a compreensão necessárias para o acolhimento do existir de Dasein como poder-ser-aí histórico. Esta é uma disponibilidade que pede ao Daseinsanalista coragem! Coragem para se aventurar nesta procura ignorante e indigente sem a garantia de que o sentido desta procura apareça. Penso que tal coragem não me seria dada se não tivesse como mestres, terapeutas, poetas e pensadores que revelaram em sua postura e pensamento a necessidade deste silêncio indigente para o oficio de compreensão dos fenômenos propriamente humanos. Saber da fertilidade inerente ao vazio silencioso torna mais tolerável a angústia da indigência com a qual trabalhamos como Daseinsanalistas.
   
   Recordando a origem da Daseinsanalyse, temos como mestres Heidegger e Boss discutindo a tarefa do terapeuta durante os seminários em Zollikon. Transformados em livro, estes encontros revelam o quanto Heidegger insistia em apontar a inadequação das teorias que pretendem explicar a natureza humana a partir de fundamentos últimos. Tanto nos próprios Seminários quanto nos livros de Boss, Fundamentos Existenciais da Medicina e da Psicologia e Daseinsanalyse e Psicanálise, vemos a inquietude de sua procura como psiquiatra. Por um lado, admirando a postura clínica de Freud em sua investigação fenomenológica aberta aos mistérios do mundo de seus pacientes, disponível à escuta de suas falas livremente associadas. Por outro, claramente comprometido com descobertas existenciais propiciadas no seu encontro com o pensamento de Heidegger acerca dos fundamentos ontológicos do existir humano como Dasein. Surgiam então questões: de que modo compreender e realizar com rigor fenomenológico a prática clínica considerando as condições ontológicas do nosso existir? Como aprofundar o conhecimento acerca dos fenômenos humanos sem ter que explicá-los a partir dos princípios da causalidade?
   
   Desde os Seminários de Zollikon, a Daseinsanalyse veio se desenvolvendo e ganhando adeptos, mas vemos que ainda hoje continua vinculada a sua origem: comprometida tanto com a postura fenomenológica na prática clínica onde procura pelas verdades singulares que tecem a história de cada paciente, quanto com a procura também fenomenológica pelos fundamentos ontológicos do existir humano, que tornam possível a infinita diversidade de enredos ônticos cujo significado é transitório.
   
   Tenho bem presente na memória uma das minhas primeiras aulas com o Guto, quando ele citou a seguinte frase de Bashô: “não siga os antigos, procure o que eles procuraram”. Talvez Boss tenha sido para o Guto um daqueles antigos cujo movimento mesmo de procura foi admirável. Na época dos encontros com Boss, Guto era ao menos 40 anos menos antigo do que ele é hoje, e mesmo tanto tempo depois, vemos que sua procura não se esgotou. Ainda o vemos procurando pelos fenômenos singulares ao existir de cada paciente e pelos fundamentos ontológicos que os alinhavam à sua origem e destinação mais próprias. De modo algum envelhecem o vigor e a inquietude da procura própria da Daseinsanalyse clínica, aquela que exige do terapeuta a liberdade de esvaziar-se para começar a procura, a cada vez e de novo, na promessa de chegar o mais próximo possível dos fenômenos propriamente humanos encontrados na singularidade ôntica de cada paciente.
   
   Nestes últimos 20 anos em que estudo com o Guto, percebo que a sua procura pelos fenômenos ônticos em sua conexão mais própria com seus fundamentos ontológicos encontra um terreno fértil tanto na aproximação fenomenológica das histórias singulares de cada paciente, quanto no pensar meditativo que encontra ressonância na filosofia (especialmente em Heidegger), mas também na mitologia Grega, no teatro, na poesia, na literatura e nos movimentos de criação artística onde os gestos revelam sua conexão com sua origem e destinação mais próprias, e ser e não-ser convivem em harmonia. Inspirada nesta procura, penso que a Daseinsanalyse ganha como parceiros todos aqueles que nos mostram a peculiaridade dos fenômenos propriamente humanos e nos fazem lembrar que o existir humano se realiza como humano na linguagem, a partir de sua incompletude, a partir de sua liberdade para ela. Cada qual a partir de seu modo mais eloquente de linguagem, me inspiram na procura indigente e aberta à escuta do que dizem meus pacientes.
   
   Segundo Guto, a Daseinsanalyse é procura. Procura via linguagem da poiesis pela verdade que liberta. Verdade que se liberta na clareira envolta em escuridão e pode ser vista. Verdade que liberta o paciente para se dedicar ao sentido próprio do seu existir. Esta é uma procura antiga que ele traz, a cada vez, com todo o vigor de algo que acaba de ser descoberto e que de fato é, a cada vez, novo. Penso ser nesta disponibilidade de procura indigente via linguagem da poiesis que os fenômenos mais propriamente humanos podem falar e ser escutados. É a linguagem da poiesis - e não a explicativa - que propicia a proximidade necessária para que possamos compreendê-los. Segundo Manoel de Barros, “Ao poeta faz bem desexplicar, tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes”. Também ao terapeuta faz bem desexplicar, uma vez que somente a partir do vazio silencioso e escuro livre de pressupostos pode brotar via poiesis e com vigor de verdade, num instante súbito, a voz afinada e singular de cada paciente enquanto dá à luz ao seu dizer.
 
   Foi via poiesis que me surpreendi pela primeira vez com a compreensão da dimensão ontológica dos fenômenos propriamente humanos. Somente a partir dessa primeira aproximação poética ao pensamento de Heidegger me vi convocada e encorajada a embarcar na aventura de leitura rigorosa dos textos originais, escritos numa linguagem filosófica de difícil acesso. A compreensão do que se diz numa linguagem filosófica exige uma disponibilidade peculiar do leitor que eu considero importante que também seja familiar ao Daseinsanalista. A linguagem filosófica só ganha eloquência a partir de um demorar-se que se dispõe ao pensamento. Demorar-se pensando em cada proposição, no sentido e significado rigorosamente concebidos das palavras escolhidas na exposição do pensamento em questão. Demorar-se que é aberto e atento enquanto acompanha o pensar dos pensadores e aguarda a ocasião de se surpreender com as dimensões mais fundamentais e menos vistas dos fenômenos. 
   
   Me dei conta da importância desta disponibilidade para o pensamento enquanto exercitava o pensar junto com meu orientador de mestrado, o filósofo Alexander Von Shoenborn, alemão que desafiava como advogado do diabo minha compreensão dos pensamentos sempre densos e muitas vezes herméticos de Martin Heidegger. Shoenborn insistia em mostrar que uma das principais heranças deste pensador era a explicitação fenomenológica de que somos uma abertura livre que tem a necessidade de se esvaziar de concepções teóricas prévias para liberar a possibilidade do exercício do pensamento. Mostrava em sua procura e apontava na minha, a inquietude angustiada das perguntas que não aceitam respostas completas. Inquietude própria das perguntas mais essenciais ao humano, que nos dizem respeito de modo tão intrínseco que também lhe pertencem a incompletude que nos é inerente.
   
   De alguma maneira, tanto a linguagem filosófica quanto a poética fazem parte do caminho de formação do Daseinsanalista. A Daseinsanalyse exige do terapeuta a disponibilidade para se dedicar tanto ao caminho do pensamento quanto ao da poesia, de modo a se comover e se transformar no encontro com estes dois jeitos de procura pelos fenômenos propriamente humanos. O trânsito do ôntico ao ontológico favorecido no pensamento e na poesia é, para o Daseinsanalista, fundamental na preparação do terreno fértil para a experiência da Daseinsanalyse clínica. Segundo Heidegger em A essência da linguagem6 , a proximidade que aproxima pensamento e poesia é o acontecimento que remete a linguagem ao próprio de sua essência, de seu vigor. Parafraseando Heidegger em sua famosa entrevista a Der Spiegel7 : “talvez nos reste apenas a possibilidade de preparar no pensamento e na poesia uma disponibilidade para a aparição ou para a ausência” 8 de um acontecimento em que verdades apareçam num vigor que devolvem ao paciente o abrigo do sentido e a certeza de ser singular e livre. Não podemos controlar a aparição destes acontecimentos, mas podemos preparar nossa disponibilidade para acolhê-los.
 
6 Heidegger, A essência da linguagem, em A caminho da linguagem, p. 153
7 Contexto filosófico diferente do nosso, comprometido com a terapia Daseinsanalítica.
8 Trecho de Heidegger em entrevista à Der Spiegel (set 1966), se referindo a impotência da filosofia para produzir tecnicamente uma ação que transforme o estado presente de mundo. 
 
   Acontece que esta afinação de espera aberta e silenciosa que de alguma forma participa do nosso trabalho como Daseinsanalistas não se restringe unicamente aos nossos momentos de trabalho. Ao contrário, uma vez descoberta a necessidade de acolhimento do  abismo silencioso da liberdade para a escuta e apropriação do dizer das situações que vivemos, não é mais possível esquecer completamente desta peculiaridade da nossa condição como humanos, como Dasein. Uma vez reconhecendo essa condição, somos convocados a continuar esta tarefa contínua de procura via poiesis pela verdade que nos liberta para nos dedicarmos ao sentido da nossa própria história singular. História composta de situações ordinárias e cotidianas que só fazem sentido se as deixamos falar e nos dispomos a escutar o que elas nos dizem. É nesta dedicação ao sentido que realizamos nosso existir como propriamente humanos, a cada vez. Minha experiência como paciente é uma das preciosas ocasiões onde o silêncio me é oferecido para que eu escute o acontecer da contação contínua de minha história. Considero parte fundamental da formação do Daseinsanalista o comprometimento com a própria tarefa de, sabendo-se como abertura livre, dedicar-se ao cuidado de ser si mesmo, sendo aí, a procura do sentido que orienta o constante tecer de sua própria história. Um Daseinsanalista não é apenas aquele que exerce a tarefa de terapeuta na experiência da Daseinsanalyse clínica, mas sim aquele que o faz, também comprometido com o cuidar de seu próprio existir como Dasein.
   
   Concluindo, talvez esteja agora mais claro o lugar do terapeuta Daseinsanalista como aquele que, comprometido com seu existir como Dasein, oferece a cada paciente e a cada sessão, o silêncio para que o exercício do poetizar e do pensar fenomenológico possam ser escutados, preparando o terreno para a espera do brotar, ou não, dos dizeres das verdades que devolvem o sentido à história singular de cada paciente, a cada vez.
 
   Dar-se da linguagem no caminho da experiência da Daseinsanalyse Clínica
 
   Pode estar soando estranho que eu considere o “dar-se da linguagem” como parceria necessária ao trabalho clinico da Daseinsanalyse. Entretanto, Heidegger nos mostra que não possuímos a linguagem como uma ferramenta de uso e controle, mas ao contrário, é a própria linguagem que nos possui enquanto se oferece como morada. Diz que assim que encontramos mundo, encontramos também a linguagem. Mundo e linguagem se co-pertencem em Dasein. Mundo aparece para nós já falando conosco. A linguagem é, neste sentido, nossa possibilidade de ser em, é a morada da existência humana. Somos um lugar aberto onde mundo se mostra e se constitui como uma rede de significados em constante movimento. Como a linguagem articula o mundo dos homens, podemos estar na proximidade de pessoas, coisas e espaços fisicamente distantes. Podemos nos situar tanto a partir de fatos da história que já passaram, quanto a partir de projetos futuros que só existem como possibilidade. Podemos morar naquilo que não tem a consistência das coisas da natureza, mas que, tendo consistência de não-ser, se configura como a morada mais própria do nosso existir como humanos, cujo fundamento é o aberto livre do poder-ser-aí. Como seres-aí, só podemos encontrar abrigo na linguagem, no movimento mesmo em que nos constituímos como a história possível que estamos sendo e que faz sentido. “Poeticamente o homem habita”, diz Heidegger citando Holderlin. 
 
   Por outro lado, o dar-se da linguagem só é possível num lugar favorável para que ela seja recebida. Este lugar somos nós, humanos. Heidegger em seu livro A essência da liberdade humana, afirma que “o homem é, fundando-se em sua existência e nessa liberdade, aquele sitio (lugar) e ocasião, na qual e com a qual o ente na totalidade se torna manifesto” 9 . Somos, como Dasein, o lugar, a abertura livre onde a linguagem pode aparecer. Nos Seminários de Zollikon, Heidegger também nos mostra isto de outra maneira. Diz que “existir como Dasein significa um manter-se aberto de um âmbito de poder apreender as significações daquilo que aparece e que se lhe fala a partir de sua clareira”.10 Somente nesta abertura livre, que somos nós, tudo aquilo que está ao nosso redor pode ser o que é, aparecendo sobre um fundo do possível em movimento articulado na linguagem. No parágrafo 34 de Ser e Tempo, Heidegger afirma que o fenômeno da linguagem teria suas raízes na constituição ontológica da abertura de Dasein. Afirma que o fundamento ontológico-existencial da linguagem é o discurso, e que o discurso é constitutivo da abertura de Dasein com a mesma originariedade que a compreensão e a afinação (stimmung). Somos uma abertura compreensiva e afinada articulada como discurso que faz sentido. Somos então constituídos como linguagem, sendo-aí na linguagem. No parágrafo 68 11, Heidegger complementa afirmando que “o discurso se funda na unidade estática da temporalidade de Dasein”, articulando presente, passado e futuro. A partir do instante presente em pleno movimento, a compreensão já adiantada pelo futuro é articulada, como discurso, ao passado afinado de alguma maneira. Como temporal em si mesmo, o discurso nos constitui como abertura destinada à transitoriedade do sentido e do significado inerentes à história incompleta que estamos vindo a ser até o fim. 
 
9 Heidegger, A essência da liberdade humana, pg. 163 
10 Heidegger, Seminários de Zollikon, pág. 230 11
 
   Tal condição de transitoriedade de sentido e significado permite que, tanto no cotidiano, quanto na Daseinsanalyse clinica possam surgir ocasiões em que o dar-se da linguagem surpreende de um tal jeito que abala o abrigo no qual costumávamos morar. Às vezes a articulação de uma palavra ou de uma imagem que nos brota, com emoção, mas sem prévio aviso, faz com que o nosso chão mude de lugar e apareça em sua transitoriedade inerente. Como se o horizonte hermenêutico que chamávamos de mundo revelasse suas bases abaladas e nos mostrasse seu movimento. Aproximo esta experiência com o depoimento vigoroso e bem-humorado do poeta Manoel de Barros quando ele diz:
 
“...Eu desestruturo a linguagem? Vejamos: eu estou bem sentado num lugar. Vem uma palavra e tira o lugar de baixo de mim. Tira o lugar em que eu estava sentado. Eu não fazia nada para que a palavra me desalojasse daquele lugar. E eu nem atrapalhava a passagem de ninguém. Ao retirar de debaixo de mim o lugar, eu desaprumei.... Foram as palavras pois que desestruturaram a linguagem. E não eu.” 12 
 
11 Heidegger, Ser e Tempo, par 68, p. 948-951 
12 Manoel de Barros, Obras completas, p. 392-393 
 
   Assim como acontece do dar-se da linguagem nos mostrar que mudamos de lugar, acontece também dela se dar de um modo que não oferece sequer um lugar como morada. Nem sempre a linguagem se dá como abrigo, como a possibilidade que se efetiva enquanto tecemos à beira do abismo um mundo articulado de significados que fazem sentido. O sentido que articula nosso ser-aí aberto na linguagem pode nos faltar quando o modo como mundo aparece é afinado na angústia. Fernando Pessoa escreve um poema cujo título é Abismo que me parece descrever essa ocasião. Diz assim:
 
Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco –
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo – eu e o mundo em redor –
Fica mais que exterior
Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar (....) 13
 
   Sem poder ligar ficamos desabrigados. Nosso abrigo na linguagem se dá quando mundo pode aparecer como rede de significados tecida pelo fio invisível do sentido que se dá como linha que liga. Sem poder ligar, aparecemos como lugar aberto, vácuo, oco, abertura livre cujo destino se realiza em constante movimento e permanece indeterminado até o fim. Na ausência do sentido fica escancarada a indigência original do nosso existir como Dasein, bem como a dor do desabrigo que lhe é inerente. A mesma abertura que na angústia é recebida como abismo é, no entanto, o lugar de onde o sentido pode brotar articulado na linguagem que abriga. Sabendo da possibilidade do desabrigo, podemos receber como um presente gratuito o dar-se da linguagem fazendo sentido.
 
 A experiência da Daseinsanalyse clínica se funda na espera por esta possibilidade de gratuidade na qual o dar-se linguagem fazendo sentido oferece um abrigo próprio para morar. É o dar-se da própria linguagem como aquela livre para o abismo do silêncio, que permite que paciente e terapeuta escutem aquilo que na história de cada paciente, a cada sessão, pede a ele voz e aparece como dizer articulado e afinado de uma determinada maneira. O dar-se da própria linguagem é a oportunidade que nos é dada como condição para que nossa voz apareça compartilhada. O dar-se da linguagem é a condição que permite que o terapeuta se aproxime dos fenômenos que constituem o mundo dos pacientes, aguardando junto com ele o brotar do sentido próprio do vir-a-ser de sua história singular.
 
13 Fernando Pessoa, Poesia 1902 -1917, p.356 
 
    Enquanto aguardam, tanto paciente quanto terapeuta falam. Paciente fala enquanto reconta a sua história a partir de onde hoje a escuta, mostra o cenário de seu mundo, descreve os personagens principais, as curvas de rio onde o seu enredo recordado explicita mudanças de sentido. No movimento mesmo de contação desta história grande, aparecem no contexto amplo e singular do seu mundo, os nós, as dores e as restrições, inclusive as que o levaram a procurar a terapia. Os dizeres vão encontrando suas formas, se organizam no tempo e na linguagem à moda do contador da própria história. O paciente se põe a escutar aquilo que se mostra a flor da pele pedindo para ser dito, enquanto procura um dizer que dê voz às verdades que lhe são mais próprias, que liberte o sentido norteador do modo mais condizente de cuidado consigo mesmo. Terapeuta fala, escutando aquilo que o paciente diz, deixando-se tocar pelo dito em silêncio, mas dizendo também, de modo a deixar que o dito do paciente apareça com o vigor que lhe é próprio. A terapia se configura como uma oportunidade fértil para acolher o movimento de vir-a-ser da fala de cada paciente sobre si-mesmo. Enquanto o paciente fala, ao mesmo tempo em que aparecem em relevo os fatos sobre os quais fala, também aparece o sendo mesmo deste falar, o modo como o paciente vai encontrando para se encontrar com os fenômenos do seu existir. A fala que tem o vigor do dizer surge do silêncio, do mistério do que ainda não se falou ou do que não se deixa falar. É neste rasgo que faz a passagem do não dito ao dito que se mostra o vigor da linguagem.
 
   Segundo Hannah Arendt em Entre o Passado e o Futuro, “o surgimento da liberdade...coincide sempre com o ato em realização... Os homens são livres enquanto agem, nem antes nem depois”. Assim como em todas as outras ocasiões de nosso existir como humanos, também no processo da terapia, somos fadados a ter que ser quem somos, realizando nosso existir enquanto exercemos nossa condição de abertura livre. A diferença do momento mesmo da terapia daseinsanalítica em relação a outros momentos cotidianos é o fato de termos no terapeuta um ouvinte atento à procura da afinação e do sentido daquele enredo em movimento. Um movimento no qual pacientes se encontram em pleno exercício de liberdade, entoando a própria voz.
 
   Assim como acontece no processo de realização de uma obra de arte, realizando a conversa que se versa na terapia, o paciente tem a possibilidade de enxergar, ou não, o próprio movimento de realização de si mesmo. A realização de si mesmo se mostra através das obras que realizamos, dos discursos que articulamos e que nos articulam, das palavras que dizemos e que nos constituem. A Daseinsanalyse é uma oportunidade de o paciente, durante cada sessão e no decorrer do processo como um todo, pôr-se-em-obra na obra feita de linguagem que é tecida em conjunto na terapia. Tramando junto com seu terapeuta dizeres sobre o seu existir, o paciente se põe em obra através da linguagem da poiesis, linguagem cujo movimento mesmo de sua execução pode servir de abrigo, de morada acolhedora do sentido que orienta o modo mais próprio de cuidar do seu existir em liberdade.